segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Tosquia

Fui á tosquia.
Era para ir ao "viegas", mas tem uma taxa de ocupação muito elevada, e agendar um dia é quase, como direi, senão, praticamente ... impossível, mesmo. Então fui á minha comadre.
Bom, mas as saudades dum corte á antiga, despertaram-me as memórias dos 5 sentidos: o aroma a pó talco que pairava no ar, com uma mistura de borrifadelas desinfectantes, que eu continuo a defender ser álcool etílico, contrariamente á ideia dos frascos de "eau de toilete" que o Sr. Agostinho Viegas (alcunha ou nome científico), orgulhosamente dispunha sobre as parteleiras de vidro embaciadas, com o cheiro do sabão seco de barba; as paredes de um branco plástico, sarampitadas por alguns dejectos de mosacas aqui e ali, galanteadas com calendários publicitários de oficinas automóveis ou de tranportadoras, dispondo modelos nuas ou semi-nuas (curiosamente as modelos da altura não sofriam de anorexia) em poses burlescas sem qualquer ponta de erotismo (mas era o que havia na altura); o amontoar de cabelos cortados, atrás da porta, dando a livida percepção de anarquia, reciclado na altura, para colocar por cima dos regos das culturas sazonais para afastar coelhos, pêgas, melros e enumeráveis pragas da época; o som das tesoura (para min de costura, sem sombra de dúvidas) , da máquina de aparar manual com o seu habitual "chiar" de aço sobre aço, a lâmina da navalha de barbear, usada por todos os fregueses da semana e já com uma aparência de serra que rrrrroooooçava sobre a pele do pescoço; a sonoridade da telefonia, emitindo a vigorosa RR (Rádio Renascença); e o sentir dos bancos de espera, em madeira de pinho seco. tradicionalmente elaborados com dois pés, recortados com triângulos nas extremidades, e uma tábua de travamento; e a carismática cadeira do barbeiro, revestida em couro vermelho, cortido e polido, pelos infindáveis e incontáveis clientes/fregueses, que por ali sentaram o traseiro macho, agarrado a uma estrutura metálica cromada e salpicada pela oxidação dos anos. E grandes personalidades ali se sentaram, como por exemplo grandes industriais da zona: Alvaro Vitorino, Abílio da Mota, Ti Luis Padeiro, Ti Luis do Outeiro, ..., e outros menos conhecidos como eu.

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