terça-feira, 17 de março de 2009

Nove anos: uma vida...

"Ainda me recordo", costuma dizer o meu pai esse grande filósofo popular, a altura exacta, e o enturpecido que fiquei no momento.
Ela calma, sabedora do próximo passo; eu a pensar se deveria ligar para o corpo de intervenção que estava no Kosovo, os bombeiros municipais, o Papa, ou ao nosso primeiro,... ou melhor, em última instância, talvez pegar no Rover 418 GTD intercooler, e fazer-me á estrada como bom escuteiro, ciente de que sabe tudo na ponta da língua, menos na hora de aflição, e desbravar terreno até chegar ao Hospital mais perto. Uma e pouca da manhã; um homem, uma mulher grávida, um puro britânico de 1800 cm3 e uma estrada quase vazia: o preocupado, a calmaria, o cavalo afoito e o cenário perfeito.
" Ela vai ficar, para atingir o máximo da dilatação." comunicou-me a enfermeira obstreta, após a ter perdido por um emaranhado de corredores que se escondiam por trás de portas vai e vem. "Mas..." indaguei, "ela pode precisar de alguma coisa, chamar por mim, ...?" interrompido momentaneamente; "Tudo o que ela precisa, está aqui. Já vai no bom caminho! Rebentaram as águas...,! É só mesmo aguardar. Mas o senhor aqui, nada pode fazer. Vá mas é para casa, que depois nós ligamos quando chegar a hora." - soletrado com um olhar, de "desampara-me a loja rapaz", mas com um tom de não ferir susceptibilidades.
Lá fiz o meu retorno a casa, convencido que nunca e alguma vez me iriam ligar peva, mas lá fui contrariado. Um homem, um carro, uma estrada e a noite calma: o não sei como, o cavalo domado, o deserto e uma noite certa de preocupações.
No entanto, ou pelo cansaço, ou por considerar que ela estaria rodeada de todos os cuidados mínimos, fui tomado pelo ataque do sono......
Sete e quinze! Ninguém diz nada! Compasso de espera, até as 11 horas, quando por auto-recriação (gosto do termo) arranco em direcção ao Hospital, decidido a manter-me no meu posto de vigília até novas ordens; quando senão as novas tecnologias entram em acção: "Sobe por o labirinto, corta à esquerda, depois em frente, um elevador á direita, uma entrada Y, ao lado da saída X, e uma porta verde ao fundo; entras e é a terceira á direita".
Aí vou eu na minha cruzada pelas encruzilhadas!
Chego á sala e... fios, soro, ... gemidos, correrias, choros, ... mas, calma. São sons que vêm do corredor. Soro é normal! E fios é para controlar ritmo cardíaco da bébé e da mãe. Ufa!
" O senhor vista esta bata e estes sapatos (sapatos ou sacos de plástico?), assina esta declaração (quase por imposição, que respeito) e deixe-nos trabalhar!" ( Onde já ouvi isto? Ah! O nosso célebre professor Cavaco! Adiante!) Até ás 15:45h, foi o suplício. Foi o delírio da calma mãe; foi a confusão da facilidade de mexer num corpo como quem procura um coelho numa cartola; foi o trocar de palavras de ordem entre hierarquias; foi o momento que não passava diante de mim; foi a troca de olhares entre nós a amparar-nos um no outro e a telepáticamente dizer-mos "calma está tudo bem!", que passou e se esvaneceu ao ouvir as palavras mágicas que tanto aguardávamos: "Esta menina para a minha sala" disse num tom segura de si mesma a doutora obstectra; "... e o senhor é para assistir?"...
"Sim!" disse eu sem desvanecer ao desconhecido. "Digo-lhe já! Se o senhor cair para o lado, a opção é por defeito, sempre a mãe e o bébé primeiro!" engoli secamente o resto da saliva que me restava e o olhar frio da especialista.
O que me espera,... o desconhecido!
A mãe e o bébé, eu, a obstectra, duas enfermeiras séniores, o pediatra, e três enfermeiros maçaricos (novos na profissão, ou em estágio), todos reunidos numa pequena sala.
"É agora! Quando lhe disser para fazer força, pressione o seu braço contra a barriga da mãe; e não tenha medo da força que vai fazer. Faça é força!" Ok mulher! Já entendi! É força para baixo. Aí vamos nós. Ai! ai!
Estes dez minutos pareciam uma autêntica eternidade! (...) E a alturas tantas, e depois de muita força (ufa!), tudo pára porquê? " Não estou a conseguir! Ela está a fazer força com o ombro, contra o cordão e a parede do útero" sussurrava a obstectra para uma enfermeira. "Prepare uma ventosa!" - "Acha?" - "Prepare á mesma, ... mas vou tentar com os ferros!" Com quem minha senhora? Com os ferros! E o que é isso de ferros (1), pensei eu. (...espanto...)) Estou no tempo da Inquisição! Que raio de instrumento de tortura é esse. Ela não sabe de nada. É inocente... quer ser mãe. Um ferro de um lado encaixado, outro de seguida; " ... e agora nada de força, que eu faço o resto, .... mas preciso de ajuda!" virou-se ordenando, quase fuzilando uma enfermeira.
... o tempo parou mesmo! A cabeça da bébé, cuidadosamente agarrado entre duas porções metálicas dos ferros.
... e finalmente o grito da libertação!
"Ó pai! Já para a rua! Você tá branco, ainda me desmaia aqui, e eu tenho mais que fazer!" Eu tou branco! Realmente, as pernas tão um tudo nada trópegas, e o espaço tempo ficou alterado num vértice ou vortex qualquer, ... é melhor ausentar-me por momentos, e ir ali para os bastidores.
"Sente-se no chão, cabeça entre os joelhos 1 minuto, e se tiver melhor volte, que elas estão á sua espera." disse-me nem sei bem quem...
Os olhos encheram-se num dilúvio de alegria sem controlo (chora para aí!) Finalmente! ....
Ergui-me! ... tinha uma missão por cumprir. Tinha que vê-las! Abri a porta e as mesmas pessoas, num rodopio, que se cruzavam com linhas, risos, agulhas, choro (de uma enfermeira estagiária, por nos ver felizes do esforço e das lágrimas), roupas, ordens, o nosso abraço, e finalmente "Vai vê-la, que é linda"...E eu confirmo... é mesmo! Parabéns!
"Hora do nascimento 15:58h, ou melhor 16:00h!"


(1) Ferros - Gíria médica para designar forceps, ou mais literalmente, uma tenaz enorme para puxar o feto de dentro da mãe.

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