quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Lavadouro do Verginho

“Estão a acabar-se-me as camisas; e as que estão a enxugar no arame, tardam em secar…” … mais vale pegar no pau de sabão azul da temperança, calçar as galochas da coragem, e seguir o sentido do lavadouro do Verginho.
A água continua a jorrar, pelos sulcos do caminho, indiferente e já rejeitada pela terra, … até a mim já me repugna, … “mas ela ainda cabe, deixa cair!” diz o pai.
Leva-se um cântaro de barro para não perder a viagem, para encher para a semana, e acamar na cantareira logo por baixo do canto da broa e da chouriça…
A água enche engrossando a cana da fonte, encanada no veio da nascente, … os bajanques derramam numa incontinência surdina, … é água no fontanário, e chuva no telhado, …
“… bom dia!” ao lado a Ti Benta bate a roupa, … entre o afoito da força e o espremer da roupa, “não sei para quem, com este tempo!”... resmunga.
Coloco o cântaro, á boca da cana, … ponho a camisa alva, mas com uma nódoa de azeite, sobre o lavadouro, … vou-me ao esfreganço com paciência…
“… o meu tino, foi p´ra França!” num saudoso rumor me informa… o sabão continua a esfregar a camisa e a nódoa que persiste imaculada, ...”raios!” quebro o silêncio do gotejar das calhas, … “ … e o que foi lá fazer?”
“ O lito do Canto, deu-lhe um trabalho por lá! … Sabes que sirvo na casa dos Justos, e o soldo e a sopa, não chegam para tudo! … e ele já tinha idade!”
A camisa continuava manchada! … “… é azeite do ´Dlino da Venda,… para não sair assim, de qualquer jeito!” declarou…
“Já tinha saudades duma fatia de pão torrado, com um dente de alho e um pingo de azeite! … Quando fui á almotolia, deixei cair uma gota maior, na camisa que tenho que levar á missa de Domingo, lá no seminário, … e já vou ouvir se ela não sair” expliquei inquietado…
“Dá tempo ao sabão, e á nódoa! Tem que curtir um pouco na água do bajanque …” mergulho a camisa enraivecido… vou dar atenção ao cântaro, que saturado de água gorgoleja...
“… o tempo não levanta, e eu preciso de ir apanhar meã e cozinha para o gado!” lamenta erguendo o alguidar, até o equilibrar numa rodilha sobre a cabeça … “…as nódoas também saem, … tem paciência! … esfrega com a calma do tempo!”
Contorço a camisa, … ergo o cântaro ao ombro, … acoito-me e preparo a ida para casa, … faz-se tarde, chove, e a janta hoje promete: migas de feijão manteiga, com brócolos e grelos de corte, … esbato um sorriso, a camisa está lavada.

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