domingo, 14 de fevereiro de 2010

Café sentimental

Sentamo-nos numa mesa, junto á vitrina, com vista para o mar e para a serra, e logo apareceu, o “garçon” refinado, de esplendorosas asas: “Eis o cardápio!”
A uma vista de olhos, algo me cativou; ela olhava, para cada sugestão trincando o lábio: “Esta malga com um amor quente” pedi, e anotou; “Eu quero uma caneca, mas gosto sempre da caneca bem quente; não gosto do amor morno, nem frio” pediu ela por trás da brochura, … sorriu e apontou “… boa escolha”. Saiu prontamente com o nosso pedido.
Ela acarinhava-me a mão, docemente, … eu desviava o olhar para o seu cabelo ondulado. “Um amor quente numa malga, e um amor quente numa caneca bem quente”, … irrompeu “… não bebam tudo duma só vez; beberiquem!” Puxei da carteira, “quanto é?” … silenciou-se … olhou para ela, … “uma vida!” paguei, olhando enciumado para o “garçon”.
Deu umas mexidelas com a colher, o amor ainda estava muito quente; saboreou com os lábios, subtilmente e pausadamente … o olhar caiu-me para o decote, … a língua limpou o resto que resistia na sua colher.
“O meu patrão, manda um bem-haja, e agradece a gorjeta! … manda estas bagas de paixão.” que raio de intrometido .
“De onde vens afinal?” murmurou levando uma baga á boca, e trincando-a; “ sou um rapazito dali da aldeia” respondi timidamente, dando uma golada na caneca. “E tu?” retorqui; … “sou duma aldeia vizinha, mas estudo na cidade! E tu, que fazes?”
Lá vinha aquele metediço, … “que tal? Está no ponto?”,… já começava a achar, que o moço se andava a atentar à moça, mas seguiu para uma mesa que acabava de ser preenchida por freguesia.
“Andei a estudar no seminário, e agora vou começar a trabalhar!” disse pegando na baga e petiscando-a, … o seu castanho mel, brilhando ao sol, invadia-me o diálogo, … ela movimentava os lábios e os dentes, musicalmente, … lambeu uma gota das bagas, que restava no dedo. “… não sou rapaz de estroina; sou mais comedido!” , … riu-se e mexeu os cabelos, … o olhar voltou a cair para o decote, … “gosto de ti!” deu um gole na caneca…
Silenciei, o murmurar do bar, o tilintar das canecas, o ordenar do patrão que se ouvia da copa, … e guardei o momento, … “alias, eu amo-te” e invadiu-me com uns lábios ainda húmidos de amor bem quente, …
O patrão olhava por cima do bar sorrindo, e ordenou ao “garçon”: “Limpa aquela mesa! Prepara os dois lugares, vem aí mais fregueses!”

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