segunda-feira, 19 de abril de 2010

Um trajamento "crono - metrado"...

22:23
“… Vamos na direcção da Fonte Luminosa. Onde estás?” tentava informar-me no meio da algazarra de ruídos, que se sobrepunham …
“… Vou agora sair. Vou deitar os meninos, nos avós, e já nos encontramos.” Disse-lhe acalmando-a e percebendo a agitação que se interpunha …
23:02
O alaranjado da iluminação pública, mostrava um movimento ténue e afoito de um mar de cabeças movimentando-se como por instinto para um único ponto, que nem baratas tontas … os lugares permaneciam todos ocupados; nem uma réstia de espaço, para o meu bólide, …
“Então?” ligou-me de preocupação …
“Não está fácil! Está tudo ocupado, …” tentando conforta-la, por ainda ser cedo …
“Estou na Praça, a caminho da Rua Direita, … depois vamos falando …” e desligou que o ruído de fundo incomodava, no mãos-livres
23:19
Depois de 17 minutos de voltas e revoltas pela cidade, um sitio, apertado, longínquo, … mas um lugar… Moagem sentido Sé; … bússola, mapa, mochila, cantil, cajado, marmita, manteu, casaca, e siga, ou talvez mais simples: as Converse All Stars nos pés, a DSC R-1 a tiracolo, Hw6515 no bolso direito, as Red Tab justinhas, a Shirt One para resguardar o tronco, aliança no seu vizinho da mão esquerda, chave no bolso esquerdo, o Chrono Blue no pulso esquerdo:
23:21
Desloco-me para o ponto de encontro “junto á escadaria da Sé”. Calculo e designo um percurso mental, mais rápido e certo. Pouca correria pelas avenidas, algo que não se costuma vislumbrar a estas horas, … as gentes confluem para o mesmo ponto.
23:33
Esquina do Paço, vislumbro a Sé aquecida pela iluminaria, oponente demarcando a sua estatura e estatuto na parte histórica da cidade , … o obstáculo de atingir o meu propósito: os Capas Negras.
23:37
“Estou a sair da Rua Direita, em direcção á escadaria. E tu?” pergunta… Eu, … eu estou estagnado, … nem para a frente nem para trás… “… estou junto ao Farmácia, mas isto não dá motivos de vir a andar!” clamo entre uma dezena de Capas Negras, … “Vem cá ter se conseguires.” … olho em redor: intransponível, … a não ser que…; olho para o castelo, que vigia a cidade, … mais abaixo a ligação entre a parte alta e a parte baixa da cidade: um caminho pedonal, … mas o tempo urge. Olho para o senhor do tempo, …:
23:41
… recordo a táctica de guerra utilizada por alguns generais, como D. Nuno Alvares: o ataque surpresa pelos flancos laterais, … refaço todo o caminho pelo emaranhado de gente, … e depois de me sacudir das Capas Negras, ingresso numa marcha cronometrada pelo flanco da cidade; uma volta bem maior, mas espero ter um lugar de tribuna bem confortável, … avenida deserta abaixo, rua e ruela, pelo meio da solidão, … subo a ruela, do antigo acesso ao castelo, …. Começo a vislumbrar um sussurro de vozes, abafado pelas paredes calcárias e luminosas da Sé, …
23:56
O lugar da tribuna, permanecia desimpedido e intacto; açambarquei-me dele. Sobressaia o ramalhal estudantil, … empunhei a DSC R-1, … foquei e esperei pela magia dos trovadores a dissertar e a bradar trovas, acompanhados por instrumentos que muito prezo. Alguém pedia “silêncio, que se vai cantar o fado!”, mas a anarquia permanecia; não havia meio de pôr ordem na euforia estudantil, … pego no Hw6515, … digito o número da esposa, … “o número para o qual ligou, não se encontra disponível; tente mais tarde!”…
00:08
… nunca fui muito adepto do “Onde está o Wally?”, mas conseguia encontrar com alguma facilidade, a dita personagem; agora tinha atingido um nível bem difícil: não encontrava a minha esposa, no meio de tanta Capa Negra, e ainda por cima, não havia comunicações , … aguardemos…
… começavam a abeirar-se algumas pessoas á minha tribuna, … (palmas) afinal, cantam e não chega cá nada? Será possível? … a insonorização daquele espaço, de facto funciona: os estudantes absorvem toda a trova que pautava pelo ar.
00:17
Todo o meu esforço fora fútil; vim eu lá de trás do sol posto, dessa terra para lá do trás-lá-de-ontem, para ouvir o canto do fado e da trova da saudade, e … nada.
“… estou junto á portada central!”… desço ao seu encalço, … a bela manta de Capas Negras, tornava-se agora em farrapos, … já no meio das gentes, ouvia-se risadas, abraços e felicitações, … e ela lá estava, ostentando o seu traje estudantil, com a capa traçada, no sítio combinado, … “Gostastes?” perguntou, … para dizer a verdade, não se ouviu nada, … “foi engraçado!” desanimado, … mas superou, a experiência de a ver trajada com o seu propósito… beijei-a.
00:32
Deitar, … e se descansar este coirão, daqui a pouco, há mais, …

P.S. - A verdade verdadinha, é esta: nunca pensei um dia passar pela experiência de viver ao ritmo da série "24", ... é cá uma canceira

1 comentário:

VANUZA PANTALEÃO disse...

Falaste bonito lá no Mixtu, falas bonito aqui...
Beijos!!!