domingo, 5 de novembro de 2017

Ganfanas



Desfiz hoje a barba... acontece por vezes, sem tempo, hora, dia, ou pedido marcado... nada de dias militarizados, para ostentar um rosto limpo. Fixo o espelho, olho o rapaz que está por traz de uma aparência viril, com três pelos no peito de homem feito, do fez a tropa sem lá pôr um pé, do faz-te um homem que a vida são trocos, do deixa as saias da tua mãe, do assume... cresceste!

Foi uma manhã, quase a volver para a tarde, ou á beira do almoço... ali perto. “Cortavas a barba ao teu pai! Não quero que ele vá assim! Está por lá muita gente. O que hão-de dizer.” ... A barba é daquelas que mais gosto: semeada rija, endurecida de cinza branco, com três dias de sabedoria de setenta anos... lixa os dedos só de roçar. Sente-se a vida no coçar. “É à tradicional?” procurando as lâminas de aço inox para apertar no aparelho de cortar as “ganfanas”, como dizia num rir mundano.

 “Não!” pronto e em tom desconfiado ... “está ali a máquina de barbear.” Foi a minha primeira vez que toquei no rosto do meu pai, com as minhas mãos,.... já o tinha beijado, mas nunca, que me recorde, tocado. A pele era hidratada, não seca tisnada dos anos queimados, mas sim...mimosa das alegrias, firme de sorrisos. Raspei-a sem saber do amanhã, ... de quem quer mostrar a perfeição, de que aprendeu bem a lição. 

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