quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um texto perdido...

O cajado pintado ás cores do sol, do tempo e do sebo, mexia na mão do avô; por entre pó de terra revolvida, cheiros de sulco da terra rasgada, fúria do suor da canga das vacas, em revoltadas sincopas de esforço dos animais que puxam as meias solas, e faz deslizar a grade. Eu aproveitava a boleia do assobio, e ouvia as ordens de quem manda na parelha: “Arhhhh! Cabana, castanha, amarela! Raios te partam mais ao dono…! Anda que já temos a sossega á sombra!” e o agitar da grade do esticão do gado, descobria em cada rasgo, cabeças de luzerna, que pescava, para assar á noite no brazido. “ Já tenho cinco no meu bolso!” O sol ardia, e o surro escorria pela face, braços e pernas, vincando as rugas. Virava a grade perto do cômaro, para não estragar o vizinho, calcando um dos lados da grade e batendo na Amarela para ela dar sinal a Castanha: “ Oooooh! Pára, que o dono tem que molhar a pragana! “ a garrafa com uma colheita do ano anterior, permanecia escondida no meio da erva, á fresca sombra. Puxava dois golos, com satisfação de ter morto a sede…, a parelha ofegante, permanecia, fiel ao barbilho e ao cajado, chicoteando unicamente o rabo para afastar as moscas e moscardos.
“ Heiche! Que se faz tarde, e o dia tá curto” calcavam á ordem, mais uma leiva de terra. A mãe, já puxava do avental, punhados de sementes que tentava espalhar o mais longe possível. Alguns passaritos destemidos, tentavam a sorte, roubando algumas sementes ainda descobertas. A merenda esperava por nós, debaixo da grande Oliveira, sobre a manta de retalhos estendida, num grande cesto de vime, que esconde um repasto: bacalhau assado, nadando na fartura do azeite, por entre o aroma de dentes de alho picado; ou galo guizado, numa rica tomatada de cebola, e colorau; broa quente para molhar, vinho e laranjas, para satisfazer a sede da sesta. Juntamo-nos; falamos da terra, das colheitas, das desavenças, … e sobretudo da vida.
“Vamos; que ainda temos meio-dia de laboeira pela frente!” levantava-se o avô, encaminhando-se ao gado e acarinhando a goela das vacas, que comiam o resto duma caroça de crutos…
A grade retomava o seu curso… já besuntado do azeite e o resto da côdea de broa na mão, saltava para a grade, ao som do compassado andar do gado… Á noite, por entre as pernas da panela de ferro, puxa-se umas brasas, e assa-se as cabeças de luzerna, … a semeadura repousa, … o Outono já se apressa para a colheita

1 comentário:

mixtu disse...

há sempre uma grande oliveira :)

abrazo serrano