sexta-feira, 17 de março de 2017
De filhota, a mulher...
Olhando para trás, poucas memórias legíveis vão permanecendo como marcos inesquecíveis nas nossas vidas.
Hoje, o meu rewind , lembra um dia de parto, ... o gentil pegar de colo, a primeira roupa, o primeiro berro, ... o choro desalmado de uns pais felizes e inexperientes, e a saída gloriosa da maternidade, prontos a defender de escudo e capa, como os super-herois.
Em stop motion, no dia-a-dia, os valores, o amor, o orgulho, o crescer, o ensinar, o proteger, o sorrir, o apoiar, ... a vida!
A princesa, pé ante pé, vai subindo na hierarquia, ... de filhota, a mulher.
Parabéns filhota, ainda!
quarta-feira, 8 de março de 2017
São mulheres...
Ao nosso lado, numa "conchinha", num choro, num abraço preocupado, num beijo leve, num piscar de olho, numa chamada de atenção, num mordiscar de lábios, num sorriso sedutor, numa tarefa dura, numa galhofa esgalhada, num colo aconchegante, num pentear despreocupado...
A silhueta encanta-nos, ... chama-nos á razão.
São avós, meninas, mães, raparigas, filhas, netas, ...
Tirando este, são todos os outros dias, ... são mulheres.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Este dia, como outro, tem tudo para nós.
"Este dia, tem tudo para nós,..." disse apertando-a entre-braços. O sorriso abre, ... mordisca os lábios ardentes.
A telefonia do Corola Deluxe vermelho, de porta aberta, sussurra um som leve, entre Barry White, Van Hallen, Jacques Brel, ... tempera o momento.
Esvoaça o cabelo preto ao leu, o peito aquece-me a paixão e o desejo, ... distrai-me.
O olhar, verde mel ao entardecer, espelha a companhia do sol quase posto, ... a silhueta no seu vestido marron azul retro decotado, desorienta-me.
Contudo, aperto-a mais um pouco, cruzando-a nos braços ... o vento começa a soprar a sul, com intensidade ... é forte e quente.
Beijo-a num ímpeto, para não me fugir.
Amanhã, terás o mesmo para nós,... um dia para amar.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Um sorriso de verdade
Isto, ... algo etéreo que entra sem caução, entre estados de ser.
Surge entre pequenos momentos, ... pequenas lutas, sente-se.
Não sei, ... mas ostentar, sabe bem saborear o som da lufada.
Abre o coração, a mente, liberta uma calma, uma paz.
Deixa-nos ... bem.
Chega um sorriso, ... um, nada mais.
Toca de leve, ... irradia, explode, expande em eficiência.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
Condimento para um Natal
A casa era esconsa nos cantos, paralela á sebe do jardim, rectilinha no carreiro, branca caiada a desmaiar num esboço grosseiro, ... Viviam lá três habitantes, uma lareira acesa, uma cantareira, e por vezes duas pessoas e um animal. Á janela uma vela, ... lá fora um frio de neve.
A mesa tosca de pinho nervurado, mantinha a mesa posta, que aguardava a ceia, ... dois pratos fundos de madeira talhados, duas colheres, dois copos, uma panela fumegante que esfriava lentamente uma canja de pombo, um jarro de coalhada fresca preparada no dia anterior, um pão cozido na manhã... ela repartia a companhia de um fogo crepitante que dançava e consumia uma cavaca de zimbro e duas de pinho.
Ele saíu a meia tarde! O gato mandriava junto á porta. Zagalote ás costas, 3 balas, 2 delas oxidadas, saco de pólvora, pedra de pederneira, mecha seca no bolso do capote, uma candeia. No meio do pinhal, a tarde entardecia, ...
De candeia acesa, cachimbo na boca, balbucia vapor e fumo ofegante entre passadas fortes na neve densa, ... orelhas atentas a qualquer movimento; nesta altura do dia, a predominância de vampiros chatos, lobisomens atroadores, almas de cabeça perdida, ... um misto de vasqueiro de outro mundo, entorpece o som, o odor, a visão ...flocos de neve resistem á lei da gravidade, solenemente.
O por do sol mostrava o seu ultimo raio, e alaranjava com rosa e azul o horizonte, ... nada de pressas.
Abanca junto a um cepo abatido nalgum temporal, que jaz sob um manto de musgo e neve, que encobre a sua figura... carrega o zagalote pacificamente, afia o fio do cutelo, nivela o relógio de areia, monta a armadilha com teia de aranha, coloca o isco: um punhado de flor de sal; reserva. Posiciona a arma entre raízes soltas e grisalhas, dedo no gatilho... Pôe-se á coca, ... mira entre a neve e árvores, o vislumbre de uma silhueta ... e espera, e aguarda. Traga um gole curto da pequena cabaça com aguardente, travo a canela. Aquece a alma por instantes.
Acata as ordens do tempo que urge, e do resto da luz que sobra da candeia. A noite já se impõe, as constelações vão-se espalhando pelo manto celestial. Vai ter que desistir, a presa não surge. Guarda tudo de novo na sacola, desarma o zagalote.
Volta as costas desapontado, ... regressa ao trilho para casa, ... 11.235 pés de distância, ... não haverá petisco para a festividade anual, somente um cântaro de água que aquece á lareira, uma canja de pombo fria, o colo do gato pachorrento, o amor da mulher...
Muitos pés gelados e encharcados a trilhar, vislumbra a pequena chama acanhada que acena da sua casa.
Com a pesada noite de escuridão, ao longe ecoa um som agrupado, entre galhos partidos, cavalgadas crepitantes, que amplifica pelo silêncio da floresta; vultos prateados que chicoteiam a alva neve, em coreografia desencantada. Centenas, dezenas ou milhares, não sabe, que se movem em migração, na sua direcção, ... será esmagado, ou triturado talvez.
Puxa o zagalote; recarrega sem pressas; apoia um joelho no chão, estala a neve; encaixa o coldre ao ombro; o alvo principal está na mira: o líder mostra o ataque no olhar ofegante da sobrevivência.
Fixa o olho cristalino,... desfere o gatilho, ... o projéctil voa, ... rasga a carne, ... cai a vitima. O grupo separa-se. O silêncio abocanha o que resta do tiro que ecoava gelidamente.
Atira o zagalote ao chão. Puxa o cutelo, e salta para a besta, ... amanha-a. Abre a sacola, agarra um punhado de flor de sal, e tempera-o. Sorri. Recolhe os artefactos. Regressa ao carreiro.
O trinco roda, ... ela assusta o gato, com um levantar preocupado, ... a porta abre-se. "Nicolau!" diz ela. Ele entra, ... o calor aquece o rosto, e o beijo dela. Pendura a presa na parede, ... a sacola no chão acompanha o zagalote.
"Teremos um belo Natal!" coçando a barba branca, pendurando o carapuço.
Ela reaquece a canja, ... amanhã é véspera de Natal.
domingo, 27 de novembro de 2016
Carrasco de palavras...
"Princesa! ... Tenho algo para te dizer." manteve o olhar fixo na minha mensagem... apreensiva!
Encaminhavamo-nos para mais uma sessão matinal em agrupamento...
"A mãe ligou, a dizer que ..." engoli um pouco em seco, e ..."a bisavó faleceu!"
A reacção não foi explosiva, ... reservada, contida em respeito, sem derrame. Guardou, verteu a lágrima de respeito e ... seguimos.
... Escolheu uma música para o momento, ... postou a sua emoção.
"Grandão! ... Quero falar contigo, ... um assunto importante! " disse-lhe.
Libertou o olhar da televisão, que o sugava em mais um episódio fascinante, parolo, com alguma pedagogia talvez, ... encarou-me em tom semi-sério que eu tentava ostentar sem resultado. Bem que cruzava o léxico mais próprio, e dei uma volta, ou volta e meia para clarificar com palavras, mais ... brandas, o sucedido. Mas não haveria palavras, muito mais explícitas que estas!
"Sabes que a bisavó, estava doente, no hospital, ... e há muito tempo que estava fraquinha! E hoje ela não aguentou!" Informei...
... E agora devo florear, contornar o assunto, construir um épico, ou simplesmente dizer ... "Morreu!"
O momento libertou a emoção, as lembranças, a paixão pela vida e tudo o que foi vivido, como uma criança que perdeu um segundo de felicidade pura...
Chorou, arrebatado das emoções, do seu coração de manteiga mole, que viveu sorrisos espontâneos, mais uma vez digo e sublinho, únicos ... encostou-se a mim, sem senão, num abraço.
" O bisavô precisava dela, também tinha saudades. Por isso foi ter com ele! Estão agora os dois felizes!" amaciei o pêso do momento... As lágrimas, humedeciam-lhe a face, escondiam-lhe o sorriso traquinas, tão próprio... compreendeu na sua ingenuidade.
No fundo, no fundo ... sou um carrasco de palavras, um colhedor de emoções, um bom vivant de amizades.
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