terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Crise de crise!

12 passam das 7! O despertador, berra caracteristicamente o inicio de uma manhã, talvez normal! Que crise de sono! 
Uma pancada seca sobre o incomodo. Mais 2 minutos de dormitar!
Fuck! Adormeci... Não há crise! Apressar os herdeiros, já característico, ... leite, torradas, cereais, sumo de tangerina ... Absorção de petit-déjeuner, antes que haja uma crise de energia matinal!
Apesar da crise dos transportes escolares, os miúdos estão á porta da escola!
Chego ao trabalho: "bom dia!" Com um aperto de mão! Falam de crises antigas disto, e daquilo, e até da crise da cachola do Leovigildo, que bebeu até não haver amanhã, copos de vinho tinto pela passagem de ano...
O expediente é resolvido entre crises de provisão económica, e crises nervosas de hierarquia de organigrama! 
Bem! Pego em duas agulhas longas, dessa bela arte de palrar ... Tenho uma ponta solta na camisola, ... Um cliente conta-me a crise que atravessa, bla bla bla... E eu vou desfiando a camisola: a mãe, diz que a avó era tecedeira; herdei geneticamente o dom. Com isto tudo, de ouvir em confissão um cliente, ja fiz meia camisola! "Sim! Pois! Claro! Exacto!"
O patrão clama citações jornalísticas do matinal, sobre a crise que o país atravessa! 
A telefonia vomita a recente crise de valores na bolsa e combustíveis! Vou almoçar a pé
O estômago entra em colapso, ... uma crise de cólicas. O entendimento é generalizado, por um ou outro alimento. Uma sopa, pois o esturjão beluga e o seu precioso recheio, atravessa uma crise de existência. Fuck! 
Acabei a camisola, e a fome é a mesma de á pouco! 
A crise toca-nos, e temos que reaproveitar os recursos que temos á mão: lutei contra a crise! Fiz uma nova camisola! É o que alimenta o mundo.
Não há safa, nem vacina, nem imunidade possível... tenho que me atirar de cabeça para a crise!



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Nicolau matreiro (e a fada dos dentes "Express" IV)

Ouvi um barulho de remexer com eco de fundo. Palpei e peguei na arma que tinha á mão: um "crok" branco! Deixei o vale das mantas, levantei-me de tronco nu e sorrateiro, pé ante pé, atrás da minha sombra e de arma segura em punho... Fisguei a sala, e o vulto irritado deambulava praguejando em silêncio: "Fuck! Fuck! and Fuck again! It´s so late!" 
Liguei a luz, ostentando o "crok" branco, apanhando o desprevenido em falso: "Pare! ... e mãos bem visíveis!" O vulto atónito, de capacete de cabedal vermelho e suas lunettes  motard, barba de várias décadas branca, kilt escocês de padrão xadrez preto e vermelho, t-shirt "I love to Rock X´mas" vermelha de pintas encarnadas, botas dr. Martin, gentilmente levantou as mãos vestidas de luvas brancas; os braços denunciavam biceps trabalhados de ginásio; "Laponia mum's love", "Mary´s X´mas" e a face de riso macabro de Jack Skeletton, eram as tatoos que o ornamentava! "Calma! Vim só deixar os presentes! Não quero criar problemas!" disse-me ... Segredei para mim, caindo numa hipotética realidade "Estou feito! A testosterona vai suprimir a minha existência da face da terra, com tanta pancada que eu vou encartar nas trombas!" Um autentico armario de classe XXL! O "crok" fugiu-me da mão, deixando-me por minha conta e risco! "Quem é o senhor?" Questionei com algum temor... 
"Quem eu? Não dá para ver?" Olhando estupefacto para si mesmo! Estendeu-me a mão "Nicolau! ... Muito prazer! Embora muita gente me trate por Santa Claus!"
"Mas o que faz aqui?" lançando a questão sem fé... "Oh amigo! Que noite é esta? Que horas são?" Cocei a cabeça "Bem! É véspera de Natal! E são 23:57!" Respondi convicto... "CERTO! Ding ding ding! Muito astucioso sem dúvida!" Elevando os enormes braços num aleluia aclamado aos céus. "Mas não será tarde demais, para visitar todas as casas?" Perguntei. 
"Bom! Realmente saí de casa eram 23:56! Esta é a ultima casa na Europa... Ás 23:57 estou no Americano, 23:57 na Asia, 23:57 na África, e 23:57 na Oceania, e por ultimo para fechar com chave de ouro, tenho reserva em Vanuatu, num resort!... Fuma?" puxando um Coribas de cuba, enrolando-o entre o nariz e a barba, sugando o aroma característico duma pausa! "Agora não! É meia noite..." parando o manusear do charuto... "Perdão! 23:57 para ser exacto!" Interrompendo-me e consultando o seu Breitling ... 
"Vai uma bolacha?" Ofereceu-me o aroma a canela chocolate do prato, que eu deixara na companhia do copo de leite branco e do pinus pinaster verde, "Eu gosto é de um panado, entre duas folhas de alface, uma rodela de tomate e duas fatias de pão integral simples... e o remate de um copo de gasosa Sepol com Groselha a tingir, ou também me contento com um tinto Alto Alentejano!" frisei as sobrancelhas, pelo meu esquecimento! "Não tem importância! Combinamos para a próxima visita!" Dando uma palmada nas costas. 
"Eh pá! 23:57! Tenho que me por de frosques! O tempo urge! Fuck!" batendo os calcanhares militarmente dando o sinal de assunto resolvido. "Por falar em visita, tens ai alguém a porta!" e sorriu... 
Dirigi-me á porta... "O que faz aqui?" 
"Vendo enciclopedias, ó Einstein!" disse-me em tom irónico, colocando as mãos na cintura... Reconheci a figura esguia e franzina, com as sete saias nazarenas vermelhas, meias meia perna de lã vermelha, de botas cardadas alentejanas, casaco curtinho de pele vermelha, com fita vermelha cetim a rematar cabelo preto curto "Aproveitei a boleia do Nicolau!" indicando para a Night Rod vermelha metalizada estancionada sobre a calçada. "A tua filhota tem algo que me pertence: um pré-molar!" confirmei num aceno de encolher de ombros ...
Voltei para dentro para intercalar o Nicolau... Mas já estava de saida com a sua sacola de pele. "Amigo! Esta converseta estava agradável, mas o resort aguarda-nos! Não é ragazza?" Apalpando com um sorriso manhoso a fada dos dentes, que fora num pé e viera noutro "Já tens o que querias?" Acenou num consentimento sorridente e matreiro, ... "23:57! Let's go baby! Que a noite é nossa! Oh oh oh oooooh!" montando a endiabrada Harley, com a sua pendura. A igniçäo abriu o caminho de estrelas que semeava a noite. Semi rodou o pulso, e o motor respondeu á ordem, sem restrição, ... rugiu e saltou para a noite! O rasto desvaneceu-se atrás do luar! 
"Fuck! Quem diria!" falando para os meus hipotéticos botões... 
"O que fazes aqui fora nesta noite, e com este frio?" pergunta-me a esposa, resguardada por uma manta polar vermelha ... olho para o relógio ... 00:08!
"É Natal amor! Feliz Natal!" um beijar e entramos para o calor! Os presentes residiam junto ao pinus pinaster que pisca em tons cromáticos pscicadelicos ...
"Que cheiro a tabaco é este? Estiveste a fumar?" ... Ele esteve aqui!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O bom do Natal


Este Natal foi diferente dos demais, sem sombra para dúvidas, … senti que sim. Talvez agoiro da dita crise, ou o afoito de presentear quem nos acompanha na vida, quem nos ama no dia-a-dia; não sei … das duas, três.  
As vitrinas de ostentação, luxúria, inveja, … um rol de “não sei o quê”. Foi literalmente, nu, puro e cru consumismo desenfreado.
E contra mim falo, … esqueci-me do verdadeiro espírito do Natal. Se ele soubesse, o quanto o valorizei, e agora, o quanto o desprezei … O olhar ao lado, de quem fica desabrigado, só, doente, desnutrido, frio, … esquecido. Devia de me ter flagelado, … ter espetado dois pares de estalos, bem dados, … e acordar para a realidade. Mas não! Cabisbaixo, deixei os braços caídos, e nem um dedo mexi … deixei-me levar.
Pelo canto do olho vi, e valeu pelo dia,... o que eu vivia á 30 anos atrás, … acordar dia de Natal bem cedo, … chamar o mano, … correr desvairado para o presépio, … sentir o calor da fogueira já acesa, … os pais que nos aguardavam impacientes pelo momento, … e abrir as prendas: um chocolate Regina, e um par de meias de algodão para usar na missa de Domingo.
Desejei chorar, pelos momentos nostálgicos, … pelo acordar de sensações de cada Natal que vivi, … é a sensação do “ó tempo volta p´ra trás”, do coração mole, …
O filhote, deslumbrado em regozijar-se com um brinquedo que fala, … a filhota, uns livros que tanto aguardava … foi a magia. Valeu pelo momento, valeu pelas pequenas coisas, que eles não exigem …
Mesmo assim, na ponta do coração mole, lembrei-me e desejei-lhe a todos, sem excepção, uma boa noite quentinha de amor, fé e esperança, … claro que não enche a fome, não aquece o frio, não acalma a doença e a solidão, … mas o desejo está traçado, porque o Natal é quando o homem quer, e não quando o calendário manda.
Um bom Natal … para todos os dias. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A gata Pink...

A brisa convida, ... embalo o balouçar dum possível lagartar
O bafo persiste,... calor subjugante, interminável!
Os miúdos aproveitam o ar livre da sombra, brincando na calçada, nas suas carolices de ingenuidade.
O ronronar ressoa; abafa a interessante e incessante conversa de duas cigarras, a despique usual, a que estava atencioso! 
"Os pormenores são deixados ao acaso, dono?" disse-me lambedo a pata na calma usual, mas cocei a cabeça num gesto de não entender o interrogatório. 
"Refiro-me aos trabalhos que fiz!" alisando os bigodes, tentando responder á provável questão, agora esquecida... "Trouxe-te um rato, deixaste-o! Como tão pequeno era, trouxe uma pomba! Nada me disseste!" preguiçosa, estirou-se aliviando a pressão da conversa... Ergui-me da espreguiçadeira... 
"A lebre ..., a raposa, ... o cavalo, ... finalmente o urso, que até tropeçaste  nele." calou-se, ... aguçou a orelha, ... engoli um travo seco... voltei a recostar-me! "E tu que me deste! Um punhado de ração seca, uma tigela de leite, uma cama seca e quente... Nada que me conforte! Não faço frente a quem tu amas... Deixo-te!" Saltou num "plié" delicado... olhou-me mais uma vez, dando-me um desvanecer da sua figura felina! 
"Com quem falavas?" abordou acariciando-me o rosto, no seu vestido retro castanho e azul, padrão que define a silhueta feminina, recostando o calor dos seus seios, contra o meu peito... Beijou-me!
Mexi-lhe no cabelo preto, afastando o que lhe cobria o rosto, ... sussurrei-lhe ao ouvido 
"Era a Pink! Deixou-nos!"

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O rei do pião

É certo que o pequeno prato, não era mais que redondo! Perdão; uma malga! 
Ao centro, uma auréola, que adornava o rebordo num azulado caiado. No fundo, uma pinga de leite angelical morna! 
O fitar do olhar, mantinha o horizonte num "frame" momentâneo,... A mão segurava a cabeça, para ela não cair! A manhã entrava pela janela! O sorriso persistia! 
"Filho! Olha o pão que torra junto ao lume!" ouvi na distância,... Mantive a postura! A pitoninha desandava incansavelmente, expulsando os outros piões, numa "roda bota fora" ... Ganhara, finalmente! Eu pulava, ... o pódio era meu: "O Rei do Pião".
Sem dar por ela, quase do nada, uma calduça bem dada, surge! "Eu não te disse! Agora comes cabozes ou carvunços! Raio da cabeça ao vento, sempre no mundo da lua!"
O pão quebrava, como uma caroça de crutos bem secos, ... crunch! crunch!
Ganhara, ... em sonhos, é claro, mas ganhara!





quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pão com Deus, Bolinho ... Aromas!

No final do dia, mergulhando ja na noite por imposição do anoitecer antecipado, caminho sob a frouxa luz de sódio que ilumina a minha sombra... A rua permanece calma, ladeada pelo fumo dos casebres, um quintal deles, se tanto ... Ergue-se um pequeno nevoeiro doce, quente... O aroma, marina a penumbra, temperada com farrapos de erva doce, canela e cravinho... Sente-se o aconchegante cheiro do forno que guardou o calor durante a tarde, e é libertado ao final do dia ao retirar o produto do tender da massa. 
Bolinho, pão de Deus, quem quer que seja, sabe bem! É a sua época... A mistura de especiarias, frutos secos, farinha, com o bracejar e lutar insessante do embrulhar desembrulhado da massa... 
Tudo condiz, harmoniosamente, o tempo da levedura, o acachar, o tender, o aconchegar, e o libertar da alquimia de sabores, no abrir da tampa do forno! O não deixar descair do forno, tem a sua arte... A brancura do calor nas paredes,  e do seu lar rubro, no ponto certo. 
A prova chega, com um Abafado, Porto ou mesmo "com dentes" ... 
Já não me recordava destas nostálgicas noites aromáticas!