terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Unique!

A noite chegou, e o afoito também: o preparar da janta, o pôr da mesa, o atiçar do lume, o pôr a converseta em dia, o preparar dos últimos doces, o abrir da "pinga da boa", o pôr a brincadeira no dia certo, ... o alarido da véspera de Natal.
E há momentos e momentos ... o abrir dos presentes. É claro que só os filhotes participam, mas mesmo assim é uma alegria de um momento que se expande por dias e dias. Compensa tudo!
A reacção do grandão, foi o momento para todos, em que sorrimos e rimos, e aquecemos os nossos corações;  especialmente a sua estupefacção, ao rasgar do papel de lustro, e o momento que abriu toda a sua boca em espanto, com o queixo totalmente caído, e arregalando os olhos, ... apeteceu-me dizer: "unique!" só para enfadar, ... mas salvei o momento para mim.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sentir, o que sentem

O grandão adoeceu, ... quem corre, salta e ginga, ... de repente pára.
... ficamos de rastos, e arrasados, sem saber o que fazer, supondo o que nos vem á cabeça ... chorando, olhando-nos no olhar, ao menino que resta, indefeso.
Sentimos o que passa na alma de amigos, que não conseguem socorrer uma maleita que seja, aos seus rebentos.
Contudo estamos, esperamos e cuidamos, com caldos, mezinhas e mimos ... e ao final, depois da tempestade, a bonança, o riso, o salto, o abraço, o beijo, o sorriso ... compensa.

Carta ao Menino Jesus ...

Do Canto de Cá
Véspera de Natal

Caro Menino Jesus!
Espero que te encontres de saúde.
A esta hora, á última é claro, venho pedir-te que encaminhes este meu desejo.
Não que eu seja um pedinchas, e nem sequer exijo que trabalhes em demasia; mas certamente conseguirás encontrar um cantinho para transportar nessa tua grande compreensão, que puxas pelo manto celestial nessa bela noite da véspera de Natal.
É claro que a boa vontade, a ternura e a bondade, de mãos dadas com o consumismo e a hipocrisia, que se esbanja na abundância das vitrinas, nos acompanha nesta época, e rápido se esquecerá; mas para este ano, contudo ... queria que me encaminhasses somente este presente, para que colocado em cada coração, prevaleça: um abraço, ... aos amigos que nos ajudam, aos filhos dos amigos que brincam, aos nossos pais que nos adoram, aos nossos avós que nos mimam, aos nossos primos, tios e familiares que nos saúdam, aos nossos irmãos que nos amparam, aos filhotes que crescem, à esposa que adoro, ... e não me quero esquecer também dos desamparados, dos tristes, dos sem abrigo, dos doentes, dos solitários, ... de todos sem excepção, porque, ...  e acho que concordas comigo, todos merecem um abraço no Natal, que é quando o homem quiser, mas por mim continua a ser todos os dias.
Espero que o deixes a todos, ... em caixa pequena de cor de agradecimento, e com laço de amor ...

Sei que não te poderei pagar tamanha tarefa, ... mas obrigado.

Um abraço do Canto de Cá ...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Passeio de ... Natal

Não sei quem estaria mais ansioso: se nós, se ele. Nós, pela primeira vez, que iria numa aventura, sem acompanhamento parental; ele ... talvez pela primeira vez, de ir em grupo com a escolinha, até á dita cidade do Pai Natal.
Enterrado no seu travesseiro, a alvorada soou, e a predisposição de acordar manteve-se, ... ; tivemos que puxar um pouco pela imaginação, para o relembrar da visita de estudo (lúdica). A filhota e a mãe, ajudaram-me a espevitá-lo, e a deixar definitivamente o sono na cama ... Lavado, vestido, repasto tomado e agasalhado de quentinho, seguiu para aguardar pela boleia ... mostrei ser forte, mantendo a alegria matinal, até chegar ao Jardim de Infância, ... o "carro grande" aguardava junto ao passeio do largo da Junta.
Deu-me a mão, e descemos a pé a calçada, com o vapor da nossa expiração, ... mantinha-se um pequeno rebuliço junto á entrada do Jardim, ... pais que se despediam, educadores que enfiavam barretes de Natal identificados com a escola, miúdos que se riam ansiosos, ... um formigueiro em alvoroço. Ele chegou crédulo, e ... deixou-me ali estagnado á entrada, misturou-se entre os miúdos, ... "tchau! Diverte-te!" gesticulando um adeus solitário ... penso que não reparou; já estava diluído, no meio de outros pequenos barretes. Hoje não dava a habitual beijoca, ladeado do característico abraço. Saí um pouco tristonho ...
Ao sair, um homem de pequena estatura, calvo de coroa como um dominicano, de camisola cinza rato em bico, colarinho branco, gravata azul astral, sapato preto engraxado, calça de fazenda, barba desfeita do dia, abeirou-se de mim educado e profissionalmente: " Desculpe! É para sair daqui?" Percebi o que dizia, frisando o olho de dúvida ... "O Passeio? É sim!" acenei ... "É que há mais Marias na terra!" afirmou rindo-se de alívio.
...
Fui buscá-lo, após contacto dos educadores ... vinha sossegado, como se nada se tivesse passado, esbanjando a bonança. "... e então gostaste?" tentei arrancar-lhe, para desbloquear a minha ansiedade, ... "Sim!" num tom pouco indiferente.
Puxando aos poucos a meada, lá foi desenrolando, mas só no essencial e objectivamente ... resumia-se mais a "vi bolinhas de neve, ... vi o Pai Natal ... vi duendes que punham cabeças a duendes" ... espera lá; ... eu já acreditava em tudo de mais mirabolante em festas, festejos e festividades, desde que vi "Nightmare before Christmas", apesar de um pouco macabro, mórbido, fantástico e brilhante ... mas isto de trocar cabeças na aldeia do Natal ... só aquelas criaturinhas.
O pessoal já não deve ter é cabeça, para esta ocasião, com tantos pedidos que atravessam esta crise, e então levam á letra a expressão de "quem me dera trocar de cabeça".

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Sapateiro Mudo ...

Subi as pequenas escadas inclinadas em esquadria, que embocavam numa pequena porta verde em pinho ressequido, da oficina. Empurrei a porta, calçada com uma pedra polida do rio, e rangeu, … o mestre, figurava sentado, levando á dança uma agulha e um fio-do-norte, no remate de uma ponta descosida … aproximei-me dele. Pôs o seu trabalho de lado, e levantou-se, de pronto a receber-me, com a ajuda dos braços, exercendo a força sobre os joelhos. O cardado das mãos, contrastava com o seu sereno ar... Saudei-o, gesticulando um acenar aéreo de "bom dia!"; contudo apertei-lhe a mão;... Movimentou os lábios, olhando-me, num surdino "b-o-m d-i-a!"
Voltou á banca, puxando um pesado avental de cabedal manufacturado de acastanhado, que dormia no chão nu da laje, junto a alguns pares de caminhadas de vida por arranjar, de modo a endireita-los e a encaminha-los... ajeitou o quico!
“Tenho estes, … precisam de um arranjo; duma … não sei … talvez … ” balbuciei mostrando o par …
Agarrou-o com suavidade, … vistoriou-o … “Humpfff! D-e q-u-e-m s-ã-o?” enquanto os manuseava …
“São da moça da aldeia vizinha, e que estuda na cidade!” informei …
Coçou o queixo, … “E-l-a g-o-s-t-a d-e t-i?” indagou …
Um pouco surpreso, respondi “Ela ama-me!” …
Olhou com precisão para a forma, … “N-ã-o h-á m-u-i-t-o m-a-i-s a f-a-z-e-r! … Humpfff! … O p-a-r e-s-t-á m-u-i-t-o b-e-m! … F-o-i f-e-i-t-o c-o-m m-e-s-t-r-i-a, f-é, d-o-r, d-e-d-i-c-a-ç-ã-o, … e s-o-b-r-e-t-u-d-o, c-o-m m-u-i-t-o a-m-o-r! Humpfff!” disse-me na sua paz …
“Mas isto não precisa de arranjo?” mostrando-lhe o que julgava ser o defeito, … “Humpfff! … I-s-t-o s-ó p-r-e-c-i-s-a d-u-m p-a-s-s-a-r d-e d-e-d-o p-e-l-o s-e-u c-a-b-e-l-o; o-u a-t-é d-e u-m o-l-h-a-r d-e-d-i-c-a-d-o; o-u d-e u-m a-c-o-n-c-h-e-g-o n-e-s-t-a-s n-o-i-t-e-s f-r-i-a-s; o-u d-e u-m a-b-r-a-ç-o i-m-p-r-e-v-i-s-í-v-e-l !” embrulhando o par, carinhosamente em folhas de papel de jornal …
A conversa, não iria render mais … peguei no embrulho, … acomodei-o debaixo do braço … ele voltou, com o seu ar taciturno, e de parcial surdez, a pegar no fio-do-norte enfiado na agulha … picou, puxou, encarreirou a vida … vezes e vezes sem conta …
“Quanto é? “ metendo a mão ao bolso, tilintando entre anseios, e desejos de uma vida …
“Humpfff! N-a-d-a !” no seu gaguejo de mudez natural, acenando silenciosamente a minha saída … volvi ás escadas, deixando para trás uma pequena oficina, de pouca luz, servida com a sua pequena janela minúscula, a sua pilha de formas enumeradas, peles de tom outonal, pares polidos, e o tic-tac que ruidosamente me despedia …