sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sol de pouca dura

Iniciado um ano lectivo, novinho em folha, no génesis da vida de estudante, o grandão surpreendeu-nos:
Cheio de força, novas amizades no horizonte, amigos das cambalhotas de verão, vizinhos dos avós maternos, a sede de aprender tudo e mais alguma coisa que lhe aparecesse á frente, ... concluíndo, o pôr o pé num Jardim de Infância, e ligar o "turbo boost", sem deixar nada para trás.
...
"Pai! Não quero ir á escola!" ... a bomba foi largada, ... detonou, ... e não houve maneira de ficar indiferente.
O que fazer nestas ocasiões? Ouvir, questionar, ... lançar um ar pedagógico ao problema, ...
Confortámos ... recebeu todo o mimo vestindo o bibe, chorou um pouco e ficou na escola, junto da assistente ...
Doi um pouco o coração, e especialmente o meu que é de manteiga com pouco sal e com ervas aromáticas, ver um filho com um choro sentido, ... aguento por dentro, sem mostrar a minha tristeza e pena.
"Hoje chora, amanhã ri" a vida é mesmo assim ...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Matinalmente correcto

Eu sei que há dificuldade em tirar o coirão da cama, logo que o despertador berra desalmadamente, no seu posto madrugador.
A visão, ao confrontar-me com o espelho, é que na sua essência me ajuda a acordar.
Encho as duas palmas das mãos, bem cheias de água fria, e lanço-as á face ... faz-me recordar a rotina do avô Telo: ir á pia das vacas,  molhar a face com dois dedos de água bem sacudidos, e seguir para a lavoura.
O acordar é instantâneo... mas no entanto algo não está no sítio.
Barba de quatro dias, reservo-a para Domingo antes da missa.
Uma inspecção corporal, ... tudo no sítio...
É a gadelha!
Não a consigo dominar; não sou rapaz de utilizar gel e afins, de modo a dominar e perfeccionar o penteado, com linha bleu. Sou mais tipo felino, molhar para controlar a rebeldia momentânea. Rego bem regado a tufa com água, e com as mãos, ajeito os fora do sítio; mesmo assim, surge sempre algum posto emissor pirata, com a sua antena de transmissão, lá bem no alto, que dificilmente consigo abafar.
Hoje é o dia! A confragem do travesseiro, deixou á solta a rebeldia; e cá estou eu com uma bela antena FM, enpiriquitada. "Tens o cabelo do avô, grosso e forte" diz o pai... a verdade é esta: tenho que ir ao barbeiro...

domingo, 19 de setembro de 2010

Uma caixa

Peguei numa pequena caixa, verdejantemente quadrada, com uma tampa doce de marron achocolatado; ...
abri a gaveta do pecegé, ... um pequeno sol, um punhado de brisa fresca e um coração, ... acondicionei cada um sobre o fundo de veludo vermelho, ... peguei na chave, rodei no sentido inverso aos ponteiros do relógio, e senti o bombear e pulsar do pequeno coração, ... fechei e reservei.
Calcei as galochas, vesti o sobretudo, ... "Espera-me, que eu também vou!" disse a esposa, que acabara de acondicionar e cintar o seu longo casaco preto ... peguei na caixa, e saímos á rua: a chuva caía. Respirei fundo, abri o chapéu de chuva, protegendo a esposa e a caixa, aliás as caixas... "Levo uma Gerebere laranja, um beijo quente, e um mimo!" segurando entre as duas mãos a caixa rosa salmonada, com tampa laranja citrino, ...
A escarduçada era forte, e molhada, quando chegamos ... "Era para deixar?" perguntou a menina que atendia os senhores no hall de entrada... acenamos de sorriso no rosto... "Ao fundo deste corredor, um largo de carpete vermelha, banhado pela luz do Sol, entre balaustres de pedra talhada!" prosseguimos e a praça que se descobria, empilhava e albergava uma pirâmide vertiginosa de várias caixas quadradas coloridas, ...
"Cada um irá receber o presente a seu tempo, ... deixemos dar-lhe o tempo devido, ... que tudo tem o seu tempo e medida!" dizia a menina que recebia as nossas caixas, empilhando-as ... "Espero que seja do seu agrado..." falei para mim.
"Vamos para casa, que a chuva parou, e o lume mantêm a sua chama!" disse a esposa sussurrando ao ouvido ...
Consenti, caminhando de braço dado e sorridente, para o Canto de Cá.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um sobrescrito

3 vezes os nós da mão, na porta da frente ... "Ó da casa!" vociferaram ...
Puxei a aldraba ... o carteiro vasculhava a sacola a tiracolo "Correspondência de longe!" com um largo e forçado sorriso... "Bom dia!" estendendo a mão, num cumprimento seguro... agarrei estranhando o sobrescrito: um envelope branco sujo, estampilha nacional, carimbado temáticamente a negro na semana passada ...
... destinatário:
"Para Eu
Canto de Cá
0000-001 Forte Abraço"
... não há engano, é de facto para mim...
... remetente:
"De um amigo
Daqui
0000-001 Abraço"
Corri o indicador pelas costas do envelope, forçando a abertura, ... o papel é de um pedido encarcidamente perfumado, mas macio... desdobrei a carta, reservei o invólucro, ...
"Bom dia!

Venho fazer-te um pedido.
A menina é filha de uns amigos, tem 3 anos e uma leucemia grave e precisa da ajuda de todos.
Por ela e por todos, vamos fazer aqui numa clínica, uma recolha de dadores de medula.
Para isso ser possível, precisamos da tua ajuda.
Obrigado!"

... .
Entrei, fechando pesarosamente a porta... sentei-me no moicho, não resistindo á força da gravidade... "É a namorada do grandão!"

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Fada dos dentes "express" III e seu "mutchacho"

“Insatisfatório!” de indicador erguido, chorando abraçado á moça do costume…
“Como pode inventar tal coisas?” disse-me de tom severo, com vontade de me oferecer de bom grado, uma tareia descomunal, ou um par de estalos bem dados… “você é mesmo uma caixinha de surpresas, cada vez que eu cá venho!”
Limitei-me a ouvir, porque o silêncio, é de ouro …o grandão, agarrado á minha perna, olhava de beicinho, bem lá do fundo…
O rapaz, meia altura ou altura e meia, calções de surfer com estampados de flores havaianas, botas pretas Doctor. Martins, casaco de cabedal acastanhado da Real Air Force, capacete de cabedal e óculos de Red Baron, … magriço, e patilhas alentejanas.
“… Simplesmente perguntei quem era! Alguém que demanda pelo grandão …” cocei-lhe o acastanhado cabelo, “ …é de ficar pé atrás!”…
“Para mais não se identificou!” e o choro parou… levantou a cabeça, … consertou o casaco, o capacete, os óculos, os calções, “João Pestana!” esticando a mão … o grandão tremeu, apertou a perna, em modo de soldadura … cristalizou o olhar, temendo que eu o denunciasse…
“Continuo a manter a minha decisão!” disse-lhe sorrateiramente, ainda cumprimentando a personalidade … pasmado, enrugou o olhar “Como? E a minha lendária ocupação? Aliás reputação secular?” recuando e emproando a decisão …
“Neste momento é uma persona non grata! O grandão teme-o!”
A moça de mãos na anca, e pasmada boquiaberta “Vou fazer o que me compete, que isto já não são contas do meu rosário! A filhota no sítio do costume, e o dente sob a almofada, é isso?” acenei … ela bateu as botas alentejanas cardadas, e entrou já saindo … “assine no sítio do costume! A recolha foi efectuada! … Um pré-molar desta vez? Um belo exemplar!” ostentando contra o luar e o céu estrelado da noite quente de Agosto …
“E nós como ficamos?” deitando o seu olhar a hálito de camomila, mesmo junto ao meu rosto … “Nada? Vou assentar aqui mesmo arraiais! Ele não vai resistir, e você sabe bem!”
Virei-me condescendendo á sua declaração, … olhei para o grandão que resistia de olhar vidrado, … parei “O seu papel é nobre, e tiro o chapéu a tamanho cargo! Mas hoje sou eu!” peguei o grandão ao colo, confiando-lhe um xi-coração apertado …
“Até amanhã, grandão!” voltei costas … ambos tinham seguido o seu curso … a fada e seu "mutchacho"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um punhado de ... sassear!

Chego-me junto á nascente, que jorra um olho de água fresca, da profundeza da terra, ... para me sassear!
Ajoelho, a tamanha grandeza ...
A água abunda, mas as minhas mãos não contêm tanta frescura, ... refresco-me.
O sol ensandece o corpo, e a lavoura tende a não acabar.
Sobreponho as mãos, á mesma, e bebo ...
Ergo-me ... conserto o chapeu, ... aperto e levanto a enchada, ...  enfrento a lavoura, ...
Quando a escassez voltar, .... voltarei ... a sassear-me.