quinta-feira, 25 de março de 2010

O senhor que rima...

Ao balcão, onde atendo a alegria, despacho o expediente geral da amizade e especialmente partilho, ou melhor, troco dois ou três dedos de experiências de vida, costuma abancar um cliente; de bigode não muito fartudo, mas sim farfalhudo, e se aprochega no encanto com o inicio de uma desgarrada:
“Oh meu caro amigo, se assim o posso dizer, passe-me lá este papel, para me pôr a mexer”
Boquiaberto, e não querendo ficar em pouco, prescrevo o pedido e remeto o troco:
“Oh caro amigo, e se assim o posso considerar, tome lá o papel, e vá trabalhar”
Remexe o bigode, … lança uma risada poética, e avança:
“Eu vou trabalhar, porque isso sei fazer, e não há outro remédio, se o quero receber”
“Se não o recebe, não é por crer, porque quem assim canta, um soldo devia ter” atesto.
A desgarrada do trovador, bem que poderia não parar, mas a rimada da vida tem que continuar, … despacho o cliente, … amanhã há mais…

sexta-feira, 19 de março de 2010

Que belo dia, pai...

Já o dia indica o seu término, e sorrio para eles; ... acabei de aconchegar as mantas bem juntinho dos sonhos... o pequeno, suspira, e retoma á sua "chucha" relachante, inspira aventuras; ... a filhota, depois duma possível "influenza", retoma ao recobro, não gosta de adoecer, ... respira o descanso, expira o cansaço, ... são os meus lindos...,  continuam a ser o meu homem grande, e a minha princesa ... premei-os todos os dias com um beijo, ... ora na face, ora na testa, ... merecem. Hoje os livros descansam, ficam de folga, ... não há histórias, mas sim momentos, ...
"Que belo dia, pai..." disse-me a filhota no seu sorriso...
Saudei o meu pai com um belo aperto de mão, e um "parabéns pai" ao seu olhar, porque sei que também gosta de ser mimado, ...e sinto, que se necessário, o meu pai me aconchega as mantas como fazia, e o faço agora aos filhotes, ... obrigado pai, por me ajudares a voar...
Bem, vou descansar, ...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Uma década

“Pai! ... Já tenho uma década, não tenho?” brilhou-me com o seu olhar… “Tens!” acenei-lhe a cabeça… sorriu de satisfeita… a confirmação, deixou-a tranquila, ...

“… e um século?” indagou … olhei-a e confirmei, “… já não falta tudo!” ... suspeitou, ... riu-se, ... mas ficou tranquila na mesma.
Continua a emanar a alegria jovial, que tem nos seus acastanhados olhos marrons,… e o corriqueiro do dia-a-dia, que continua a ser simples, …
Agradeço a tua década, e o primeiro dia da mesma, … parabéns filhota ... uma beijoca sentida de amor.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Suicidio colectivo

Hoje, foi um dia mórbido, ...assisti a vários suicídios de árvores; não aguentaram a pressão climática, e suicidaram-se; deixaram um rasto de danos colaterais; … todas tinham um bilhete a pedir: “como ultima vontade, desejo ser incinerada”; … pequenos elfos vermelhos preparavam a ordem fúnebre, realizando in locco a autopsia; ... á marcha fúnebre, que já se estendia por uma centena de metros, compareceu uma multidão, com direito a comitiva das autoridades e tudo... que tragédia, ... um suicidio colectivo

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Falar directamente com Deus

... retirei do meu "arrumo", os calções, a bóia, … e a pesada lista telefónica, para procurar o numero de telefone do Sr. S. Pedro, ... talvez consiga mitigar a sua atenção, esbatendo um ar mais lastimoso, tipo lama espalhada pelas fuças… o melhor será falar directamente com Deus, porque hoje em dia falar com os Santos, não nos leva a lado nenhum.

Lavadouro do Verginho

“Estão a acabar-se-me as camisas; e as que estão a enxugar no arame, tardam em secar…” … mais vale pegar no pau de sabão azul da temperança, calçar as galochas da coragem, e seguir o sentido do lavadouro do Verginho.
A água continua a jorrar, pelos sulcos do caminho, indiferente e já rejeitada pela terra, … até a mim já me repugna, … “mas ela ainda cabe, deixa cair!” diz o pai.
Leva-se um cântaro de barro para não perder a viagem, para encher para a semana, e acamar na cantareira logo por baixo do canto da broa e da chouriça…
A água enche engrossando a cana da fonte, encanada no veio da nascente, … os bajanques derramam numa incontinência surdina, … é água no fontanário, e chuva no telhado, …
“… bom dia!” ao lado a Ti Benta bate a roupa, … entre o afoito da força e o espremer da roupa, “não sei para quem, com este tempo!”... resmunga.
Coloco o cântaro, á boca da cana, … ponho a camisa alva, mas com uma nódoa de azeite, sobre o lavadouro, … vou-me ao esfreganço com paciência…
“… o meu tino, foi p´ra França!” num saudoso rumor me informa… o sabão continua a esfregar a camisa e a nódoa que persiste imaculada, ...”raios!” quebro o silêncio do gotejar das calhas, … “ … e o que foi lá fazer?”
“ O lito do Canto, deu-lhe um trabalho por lá! … Sabes que sirvo na casa dos Justos, e o soldo e a sopa, não chegam para tudo! … e ele já tinha idade!”
A camisa continuava manchada! … “… é azeite do ´Dlino da Venda,… para não sair assim, de qualquer jeito!” declarou…
“Já tinha saudades duma fatia de pão torrado, com um dente de alho e um pingo de azeite! … Quando fui á almotolia, deixei cair uma gota maior, na camisa que tenho que levar á missa de Domingo, lá no seminário, … e já vou ouvir se ela não sair” expliquei inquietado…
“Dá tempo ao sabão, e á nódoa! Tem que curtir um pouco na água do bajanque …” mergulho a camisa enraivecido… vou dar atenção ao cântaro, que saturado de água gorgoleja...
“… o tempo não levanta, e eu preciso de ir apanhar meã e cozinha para o gado!” lamenta erguendo o alguidar, até o equilibrar numa rodilha sobre a cabeça … “…as nódoas também saem, … tem paciência! … esfrega com a calma do tempo!”
Contorço a camisa, … ergo o cântaro ao ombro, … acoito-me e preparo a ida para casa, … faz-se tarde, chove, e a janta hoje promete: migas de feijão manteiga, com brócolos e grelos de corte, … esbato um sorriso, a camisa está lavada.