quarta-feira, 17 de março de 2010

Uma década

“Pai! ... Já tenho uma década, não tenho?” brilhou-me com o seu olhar… “Tens!” acenei-lhe a cabeça… sorriu de satisfeita… a confirmação, deixou-a tranquila, ...

“… e um século?” indagou … olhei-a e confirmei, “… já não falta tudo!” ... suspeitou, ... riu-se, ... mas ficou tranquila na mesma.
Continua a emanar a alegria jovial, que tem nos seus acastanhados olhos marrons,… e o corriqueiro do dia-a-dia, que continua a ser simples, …
Agradeço a tua década, e o primeiro dia da mesma, … parabéns filhota ... uma beijoca sentida de amor.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Suicidio colectivo

Hoje, foi um dia mórbido, ...assisti a vários suicídios de árvores; não aguentaram a pressão climática, e suicidaram-se; deixaram um rasto de danos colaterais; … todas tinham um bilhete a pedir: “como ultima vontade, desejo ser incinerada”; … pequenos elfos vermelhos preparavam a ordem fúnebre, realizando in locco a autopsia; ... á marcha fúnebre, que já se estendia por uma centena de metros, compareceu uma multidão, com direito a comitiva das autoridades e tudo... que tragédia, ... um suicidio colectivo

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Falar directamente com Deus

... retirei do meu "arrumo", os calções, a bóia, … e a pesada lista telefónica, para procurar o numero de telefone do Sr. S. Pedro, ... talvez consiga mitigar a sua atenção, esbatendo um ar mais lastimoso, tipo lama espalhada pelas fuças… o melhor será falar directamente com Deus, porque hoje em dia falar com os Santos, não nos leva a lado nenhum.

Lavadouro do Verginho

“Estão a acabar-se-me as camisas; e as que estão a enxugar no arame, tardam em secar…” … mais vale pegar no pau de sabão azul da temperança, calçar as galochas da coragem, e seguir o sentido do lavadouro do Verginho.
A água continua a jorrar, pelos sulcos do caminho, indiferente e já rejeitada pela terra, … até a mim já me repugna, … “mas ela ainda cabe, deixa cair!” diz o pai.
Leva-se um cântaro de barro para não perder a viagem, para encher para a semana, e acamar na cantareira logo por baixo do canto da broa e da chouriça…
A água enche engrossando a cana da fonte, encanada no veio da nascente, … os bajanques derramam numa incontinência surdina, … é água no fontanário, e chuva no telhado, …
“… bom dia!” ao lado a Ti Benta bate a roupa, … entre o afoito da força e o espremer da roupa, “não sei para quem, com este tempo!”... resmunga.
Coloco o cântaro, á boca da cana, … ponho a camisa alva, mas com uma nódoa de azeite, sobre o lavadouro, … vou-me ao esfreganço com paciência…
“… o meu tino, foi p´ra França!” num saudoso rumor me informa… o sabão continua a esfregar a camisa e a nódoa que persiste imaculada, ...”raios!” quebro o silêncio do gotejar das calhas, … “ … e o que foi lá fazer?”
“ O lito do Canto, deu-lhe um trabalho por lá! … Sabes que sirvo na casa dos Justos, e o soldo e a sopa, não chegam para tudo! … e ele já tinha idade!”
A camisa continuava manchada! … “… é azeite do ´Dlino da Venda,… para não sair assim, de qualquer jeito!” declarou…
“Já tinha saudades duma fatia de pão torrado, com um dente de alho e um pingo de azeite! … Quando fui á almotolia, deixei cair uma gota maior, na camisa que tenho que levar á missa de Domingo, lá no seminário, … e já vou ouvir se ela não sair” expliquei inquietado…
“Dá tempo ao sabão, e á nódoa! Tem que curtir um pouco na água do bajanque …” mergulho a camisa enraivecido… vou dar atenção ao cântaro, que saturado de água gorgoleja...
“… o tempo não levanta, e eu preciso de ir apanhar meã e cozinha para o gado!” lamenta erguendo o alguidar, até o equilibrar numa rodilha sobre a cabeça … “…as nódoas também saem, … tem paciência! … esfrega com a calma do tempo!”
Contorço a camisa, … ergo o cântaro ao ombro, … acoito-me e preparo a ida para casa, … faz-se tarde, chove, e a janta hoje promete: migas de feijão manteiga, com brócolos e grelos de corte, … esbato um sorriso, a camisa está lavada.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Petição climática

Que belo repasto matinal, acompanhado de um entroar da mãe natureza, uma salga de foskamónio, e lavagem com uma chuva de cântaros!
Aos filhotes, tento incutir uma definição científica, para o fenómeno que admiro mas respeito, … e não um factor religioso “é Deus a ralhar com os homens, triste com os seus procedimentos”; mas não sei se nesta altura uma definição poética não viria mesmo a calhar, tipo “duas nuvens que bateram, sem crer, na avenida do Céu”, como quando poeticamente transmitia a uma pequena prima, que o algodão era colhido das nuvens, com um avião biplano…
Os filhotes acobardaram-se á brutalidade da natureza, … e eu temi por eles. Ambos procuraram refúgio madrugador na nossa cama “large size”, … visto haver espaço, que prontamente decidiram resgatar, bem e subtilmente sem oposição, com uns “chega para lá de pontapés e cotoveladas, que nós já chegamos”…
O resto do descansado sono, tinha ido com a chuva, … nada a fazer; o pequeno conquista terreno á minha fronha, com turras, e pontapés, … a filhota, com o desarrolhar do edredon; a precipitação, fustiga os estores, … já era.
Convenientemente, vou criar uma petição para trovoadas, chuvas, ventos, … mau tempo em geral, para decorrerem somente durante o horário de trabalho, e não durante o do descanso do guerreiro.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Embalo do relógio

00:32 … com um olho no sono, e um ouvido nos filhotes, … comecei a deixar o ar de sentinela, e saltei para uma opção Zen, … mais descontraída, … relaxada, …
(…) algo me importunava, … o olho, não havia maneira de se pregar ao travesseiro, … e o ouvido mantinha frequência aberta com o mais pequeno; o remexer no colchão, a chucha que mamava, a agitação de um sonho menos alegre, o transformar do sonho num choro, …
…arrebatei as mantas, e saltei pronto, … embora semi-nu, engalfinhei-me, sentindo os músculos contraírem-se um a um, … voei para o quarto de pequeno.
“Então?” sussurrei … “… a ´peta, … (buááá)” de olhos cerrados sentado, chorando me gritou…
Palmilhei cada cm² do colchão, e a sossega do sono, não aparecia, … já intrigado, e engadanhado com o frio, remexi por baixo da almofada, com o desespero do sono que se intrometia … lá estava ela quieta, aguardando a visita de alguma fada, talvez.
Devolvi-a ao legítimo dono, e o desespero deu lugar á bonança, … aconchegou o corpo, ajustei-lhe as mantas, … deixei-o no seu fantástico sonho, …
01:07 … corpo novamente de regresso á caminha, … a temperatura ambiental, sacudira-me totalmente, contraindo-me, … o corpo, voltava á sua forma relaxada; agarrei-me á esposa, de forma a usurpar algum calor, que teimava em não aparecer, … e tudo devido ao ponto fraco que me importunava, e não reparara antes, … o dedo polegar do pé estava, quase no estado de criopreservação, …esse malandro roubou-me o sono, … hoje faz-me falta, …
02:36 … estou tentado a ligar, para alguma empresa cerâmica das redondezas, para ir aquecer este dedo, junto á tremunha do alimentador de serradura do forno, … tenho que me distrair: contar ovelhas que saltam o cercado de pedra, mas só penso na ovelha Choné, e uma só não dá resultado, só dá galhofa; criar palavras com a inversão dos números do relógio “LESO = 02:37, … OSSO = 05:50, … SOLO = 07:05” …
07:05 … berra o despertador, … de pé; … agora já está quente, mas tens que ir trabalhar, … a reter para o próximo sono: casa quente, pijama completo, botija de água quente, chupeta suplente á mão, e deixar de brincar com o despertador a criar palavras, …