A dor no peito e a preocupação, era de um crescendo, e visto as mezinhas da mãe não surtirem efeito, resolvi ir á farmácia do lugarejo. A porta guinchou, e a campainha, saudou a entrada; apareceu o farmacete, o Sr. Zé de bigode farfalhudo, mas atencioso “Bons Dias! O que deseja freguês?”. Olhei para as prateleiras brancas, e comecei a relatar a minha maleita “Ando a ter umas dores no peito…” … “Quem é a moçoila?” interrompeu; “... isto foi desde que bebi uma malga de amor quente, …” indaguei, … “Mas quem é a moça?” irrompeu de um modo arisco. “…é uma moça da aldeia vizinha, mas estuda na cidade!” declarei.
“Estou a ver, …” virou-me as costas, e remexendo no seu bigode, começou a espreitar para os frascos e caixas. Pegou em três caixinhas. “Esta caixa de beijos: um beijo de manhã e outro á noite, sem interrupção; esta pomada de felicidade, durante o dia; e estas ampolas de paixão, para qualquer hora!” embrulhando em papel manteiga, e escrevendo por fora o receituário. “Quanto é a paga?” pedi … fixou-me, mexeu o bigode, franziu o olho e perguntou para o gabinete: “ A conta deste moço, patrão?” apareceu o patrão “É o mesmo de sempre: uma vida bem vivida!”
“Sr. Zé do bigode fartaludo! Avie aquela receita do pastor da serra apaixonado! Ouvi dizer que estava a chegar, … não gosto de fazer esperar ninguém!”
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Café sentimental
Sentamo-nos numa mesa, junto á vitrina, com vista para o mar e para a serra, e logo apareceu, o “garçon” refinado, de esplendorosas asas: “Eis o cardápio!”
A uma vista de olhos, algo me cativou; ela olhava, para cada sugestão trincando o lábio: “Esta malga com um amor quente” pedi, e anotou; “Eu quero uma caneca, mas gosto sempre da caneca bem quente; não gosto do amor morno, nem frio” pediu ela por trás da brochura, … sorriu e apontou “… boa escolha”. Saiu prontamente com o nosso pedido.
Ela acarinhava-me a mão, docemente, … eu desviava o olhar para o seu cabelo ondulado. “Um amor quente numa malga, e um amor quente numa caneca bem quente”, … irrompeu “… não bebam tudo duma só vez; beberiquem!” Puxei da carteira, “quanto é?” … silenciou-se … olhou para ela, … “uma vida!” paguei, olhando enciumado para o “garçon”.
Deu umas mexidelas com a colher, o amor ainda estava muito quente; saboreou com os lábios, subtilmente e pausadamente … o olhar caiu-me para o decote, … a língua limpou o resto que resistia na sua colher.
“O meu patrão, manda um bem-haja, e agradece a gorjeta! … manda estas bagas de paixão.” que raio de intrometido .
“De onde vens afinal?” murmurou levando uma baga á boca, e trincando-a; “ sou um rapazito dali da aldeia” respondi timidamente, dando uma golada na caneca. “E tu?” retorqui; … “sou duma aldeia vizinha, mas estudo na cidade! E tu, que fazes?”
Lá vinha aquele metediço, … “que tal? Está no ponto?”,… já começava a achar, que o moço se andava a atentar à moça, mas seguiu para uma mesa que acabava de ser preenchida por freguesia.
“Andei a estudar no seminário, e agora vou começar a trabalhar!” disse pegando na baga e petiscando-a, … o seu castanho mel, brilhando ao sol, invadia-me o diálogo, … ela movimentava os lábios e os dentes, musicalmente, … lambeu uma gota das bagas, que restava no dedo. “… não sou rapaz de estroina; sou mais comedido!” , … riu-se e mexeu os cabelos, … o olhar voltou a cair para o decote, … “gosto de ti!” deu um gole na caneca…
Silenciei, o murmurar do bar, o tilintar das canecas, o ordenar do patrão que se ouvia da copa, … e guardei o momento, … “alias, eu amo-te” e invadiu-me com uns lábios ainda húmidos de amor bem quente, …
O patrão olhava por cima do bar sorrindo, e ordenou ao “garçon”: “Limpa aquela mesa! Prepara os dois lugares, vem aí mais fregueses!”
A uma vista de olhos, algo me cativou; ela olhava, para cada sugestão trincando o lábio: “Esta malga com um amor quente” pedi, e anotou; “Eu quero uma caneca, mas gosto sempre da caneca bem quente; não gosto do amor morno, nem frio” pediu ela por trás da brochura, … sorriu e apontou “… boa escolha”. Saiu prontamente com o nosso pedido.
Ela acarinhava-me a mão, docemente, … eu desviava o olhar para o seu cabelo ondulado. “Um amor quente numa malga, e um amor quente numa caneca bem quente”, … irrompeu “… não bebam tudo duma só vez; beberiquem!” Puxei da carteira, “quanto é?” … silenciou-se … olhou para ela, … “uma vida!” paguei, olhando enciumado para o “garçon”.
Deu umas mexidelas com a colher, o amor ainda estava muito quente; saboreou com os lábios, subtilmente e pausadamente … o olhar caiu-me para o decote, … a língua limpou o resto que resistia na sua colher.
“O meu patrão, manda um bem-haja, e agradece a gorjeta! … manda estas bagas de paixão.” que raio de intrometido .
“De onde vens afinal?” murmurou levando uma baga á boca, e trincando-a; “ sou um rapazito dali da aldeia” respondi timidamente, dando uma golada na caneca. “E tu?” retorqui; … “sou duma aldeia vizinha, mas estudo na cidade! E tu, que fazes?”
Lá vinha aquele metediço, … “que tal? Está no ponto?”,… já começava a achar, que o moço se andava a atentar à moça, mas seguiu para uma mesa que acabava de ser preenchida por freguesia.
“Andei a estudar no seminário, e agora vou começar a trabalhar!” disse pegando na baga e petiscando-a, … o seu castanho mel, brilhando ao sol, invadia-me o diálogo, … ela movimentava os lábios e os dentes, musicalmente, … lambeu uma gota das bagas, que restava no dedo. “… não sou rapaz de estroina; sou mais comedido!” , … riu-se e mexeu os cabelos, … o olhar voltou a cair para o decote, … “gosto de ti!” deu um gole na caneca…
Silenciei, o murmurar do bar, o tilintar das canecas, o ordenar do patrão que se ouvia da copa, … e guardei o momento, … “alias, eu amo-te” e invadiu-me com uns lábios ainda húmidos de amor bem quente, …
O patrão olhava por cima do bar sorrindo, e ordenou ao “garçon”: “Limpa aquela mesa! Prepara os dois lugares, vem aí mais fregueses!”
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Olha olha ...
“O que fizeste hoje, pequeno?” meto-me com ele, … na sua vida …
“Olha olha, … “ balbucia ele, … “casa do ´vô, …, qelho, … ´á meio, … lalanja canininha, …” indiferentemente cansado, dedilhando uns Lego´s teimosos.
“Fizeste isso tudo?” questionando a sua veracidade.
“Xim! …” confirmando com a cabeça e o olhar de ar maroto e risonho, e aditando … “a tio, …a popó, … ´cola mana…”
Estava perplexo, com tantas actividades … os afazeres do rapaz, sem dúvida nenhuma mais de meio-dia de laboeira …
(cantarola uma música, distraidamente …)
“… e hoje?”
“pffffff! Olha olha, … a cão, … biqueta, … café popó ´vô, …” relata desinteressadamente, remexendo vezes sem conta nem contar, nos Lego´s.
“Pai! Olha olha!” puxa-me o dedo e a atenção, … algo que á primeira vista não consigo vislumbrar, … uma construção qualquer, … algo abstractamente montado, … esfrega os olhos e as narinas, … o cansaço anda por aí … um leitinho quente, uma botija de água quente, um abraço quente, e o sorriso, … quente.
“Olha olha, … “ balbucia ele, … “casa do ´vô, …, qelho, … ´á meio, … lalanja canininha, …” indiferentemente cansado, dedilhando uns Lego´s teimosos.
“Fizeste isso tudo?” questionando a sua veracidade.
“Xim! …” confirmando com a cabeça e o olhar de ar maroto e risonho, e aditando … “a tio, …a popó, … ´cola mana…”
Estava perplexo, com tantas actividades … os afazeres do rapaz, sem dúvida nenhuma mais de meio-dia de laboeira …
(cantarola uma música, distraidamente …)
“… e hoje?”
“pffffff! Olha olha, … a cão, … biqueta, … café popó ´vô, …” relata desinteressadamente, remexendo vezes sem conta nem contar, nos Lego´s.
“Pai! Olha olha!” puxa-me o dedo e a atenção, … algo que á primeira vista não consigo vislumbrar, … uma construção qualquer, … algo abstractamente montado, … esfrega os olhos e as narinas, … o cansaço anda por aí … um leitinho quente, uma botija de água quente, um abraço quente, e o sorriso, … quente.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
frio ... enrigece o corpo
"Tenho frio, pai!" ... esta dualidade frio calor, baralha-me ... ou melhor, a minha inoperância perante esta causa.
"... se estiveres quietinho na cama, mesmo com os pés frios, é quanto basta para aqueceres, ..." comenta o pai ..."até pareces um trabelo; ... agora se não paras quieto, é frio de arrebate!"
"Não há nada melhor que pores uma manta de retalhos, tecida pela avó Maria, ... por cima do corpo, que assim só mexem os olhos, ... o peso aquece-te mais depressa, ..." diz a mãe. "... e uma pele de ovelha curtida aos pés, isso então é que é!" comenta o pai, ..."Nestes tempos, porque já não há retalhos, ajuda a botija de água quente, ... é a força deste tempo" ... tomo este conselho, porque as de retalhos, com cheiro a naftalina, guardadas na mala do enxoval, ... preservo-as com carinho, para abrir e arejarem em pleno Verão, com uma bela duma sesta por cima.
Ainda tinha um professor, dos tempos de seminário, "... antes de deitar, lavar os pés com água fria; é quanto basta, para uma noite bem dormida.O frio enrigece o corpo, e cura as maleitas!" é possível, ...
"Agora há os lençois térmicos e polares, mais leves que os de flanela, ... e aquecem mais rápido!" comenta a mãe.
"Filhota! Os avôs sabem destas coisas; fiquemos pela sopa de feijão no bucho, a lareira quente, e a botija aos pés." unanimidade na decisão: quentinho aos pés, estômago cheio e sonhos radiosos.
Tomo todos os conselhos por cautela; mas adiciono o toque pessoal: dormir aconchegado e abraçado com a esposa, quietinho, depois de um banho quente, no meio dos lençois térmicos, esmagado por edredons, que as de retalhos descansam até ao Verão, que ainda tarda...
"... se estiveres quietinho na cama, mesmo com os pés frios, é quanto basta para aqueceres, ..." comenta o pai ..."até pareces um trabelo; ... agora se não paras quieto, é frio de arrebate!"
"Não há nada melhor que pores uma manta de retalhos, tecida pela avó Maria, ... por cima do corpo, que assim só mexem os olhos, ... o peso aquece-te mais depressa, ..." diz a mãe. "... e uma pele de ovelha curtida aos pés, isso então é que é!" comenta o pai, ..."Nestes tempos, porque já não há retalhos, ajuda a botija de água quente, ... é a força deste tempo" ... tomo este conselho, porque as de retalhos, com cheiro a naftalina, guardadas na mala do enxoval, ... preservo-as com carinho, para abrir e arejarem em pleno Verão, com uma bela duma sesta por cima.
Ainda tinha um professor, dos tempos de seminário, "... antes de deitar, lavar os pés com água fria; é quanto basta, para uma noite bem dormida.O frio enrigece o corpo, e cura as maleitas!" é possível, ...
"Agora há os lençois térmicos e polares, mais leves que os de flanela, ... e aquecem mais rápido!" comenta a mãe.
"Filhota! Os avôs sabem destas coisas; fiquemos pela sopa de feijão no bucho, a lareira quente, e a botija aos pés." unanimidade na decisão: quentinho aos pés, estômago cheio e sonhos radiosos.
Tomo todos os conselhos por cautela; mas adiciono o toque pessoal: dormir aconchegado e abraçado com a esposa, quietinho, depois de um banho quente, no meio dos lençois térmicos, esmagado por edredons, que as de retalhos descansam até ao Verão, que ainda tarda...
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
... face, e sorri.
... beijo-lhes as faces, todas as manhãs e noites, ... "beija-me outra vez, com miminho" … e sorri, antes de nos largarmos da cama... "canta-me um embalo, pai" … canto mexendo-lhe no cabelo, e beijo a face, ... sorri adormecendo... o pequeno não é dado a essas coisas do amor, … gosta mais de dar chochos, e xi-coração de obrigação, … bem tento suborná-lo com histórias de embalo para o sono, mas ele é mais do sim ou sopas, não há negociações, … tentativas de beijar a face? Mais de mil … a brincadeira é o seu mundo, até o sono o fazer cair … mas o seu descanso é o meu consolo, … o beijo na face, que lhe dou, apanhando-o desprevenido no sonho … sorri.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Parabens ... pai
O fagulha faz anos ... fui visitá-lo pela manhã. Vinha do café ... "se eu soubesse tinha ido ter consigo ao Norte, para molhar a pragana" disse-lhe, ... "foi o que perdeste. O meu já cá canta." riu-se para mim. "Parabéns!" ... e agradeceu. A filhota, abraçou-o "parabéns avô!"...
Riu-se e de olhar cristalino caminhou para casa; ... segui para o trabalho ... parabéns pai.
Riu-se e de olhar cristalino caminhou para casa; ... segui para o trabalho ... parabéns pai.
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